Um ser humano completo

      Em um vilarejo pequeno, o garoto praticava sua nova arte. Fora criado naquele ambiente, conhecia cada aspecto daquela mágica, sua mente a saltar entre os mais diversos protótipos. Em sua frente, prostrado sobre a bancada, a primeira tarefa que o mestre havia lhe passado: deveria copiar, com o maior detalhismo possível, o primeiro elmo forjado pelo velho ferreiro.

       Com pesar nos olhos, o garoto olhou o elmo retorcido a sua frente. Tinha aspecto pueril, quase amador, com o aço carcomido em vários pontos e claras marcas de martelos podiam ser vistas em toda a superfície. Até a viseira era fora de esquadro, o que irritou o garoto. “Cresci sob o manto desse velho ferreiro, e esta foi sua primeira ‘obra’? Isso é perda de tempo.”

          O velho ferreiro, ao observar o tormento no rosto do garoto, se aproximou e disse-lhe: “Meu querido aprendiz, vejo que não tomou sua primeira tarefa com agrado. Para forjar meu primeiro elmo, que é este na sua frente, precisei ouvir sabiamente meu mestre, e seguir seus passos cuidadosamente. Como forma de motivação, dou-lhe a oportunidade de me perguntar sobre qualquer aspecto deste elmo, e prometo que a resposta o ajudará a forjar o seu próprio.”

     Assolado por cinismo e descrença, o garoto indagou ao velho ferreiro quanto tempo havia tomado para forjar aquele elmo. Olhando-o calmamente, o ferreiro respondeu: “Uma semana inteira.
Esta era sua única pergunta, quando terminar, por favor, traga o elmo até minha bancada.”
Ao ouvir aquela resposta, o garoto foi tomado por euforia e egoísmo simultaneamente. Estava claro que o velho havia mentido, aquele elmo era tão amador que qualquer aprendiz poderia forjá-lo em questão de horas, bastava o tempo para aquecer o forno.

      E assim o garoto começou a forjar seu elmo. Seguiu cada passo à partir da memória, havia observado o velho ferreiro forjar  centenas de elmos como aquele, de qualidade e acabamento superiores. No entanto, para sua surpresa, o garoto foi encontrando novas dificuldades que atrasavam e complicavam o processo. Perdeu a conta de quantas vezes precisou recomeçar por cometer erros primários nos passos intermediários, e se enfureceu ao ver dias ensolarados e noites estreladas passando pelas frestas e janelas da cabana apenas para encontrá-lo vez e outra frustrado e desanimado.

       Ao final de uma semana desistiu das tentativas e levou o que poderia ser a estrutura de um elmo para a bancada do velho ferreiro. Quando depositou-a na bancada, olhou para o velho com derrota e remorso no coração, além de raiva e confusão.

     O velho ferreiro observou longa e atentamente o exemplar do garoto. Ao voltar seus olhos para aquela face jovem, sorriu e disse-lhe: “Meu querido aprendiz, vejo a derrota no seu olhar e sinto a confusão permeando sua mente. Como lhe disse, para forjar meu primeiro elmo, que é este ao lado do seu, precisei ouvir sabiamente meu mestre e seguir seus passos cuidadosamente. Pelo seu esforço e dedicação, tem direito à uma nova tentativa, e à uma nova pergunta.”

    Incrédulo com a calma do velho ferreiro ao contemplar o fracasso dele, o garoto perguntou se o velho havia fracassado também em sua primeira tentativa. Sem retornar o olhar, o velho respondeu calmamente: “Não. Esta era sua única pergunta, quando terminar, por favor, traga o elmo até minha bancada.”
A resposta enfureceu o garoto, ao mesmo tempo que sentia o corpo arder com o misto de fúria e embaraço em seu coração. Lívido de fúria, deu início à forja, cada passo do novo processo permeado pela frustração de não ter alcançado o mesmo patamar do velho ferreiro. O elmo forjado pelo velho era tão amador, e mesmo assim ele não conseguira chegar próximo depois de tantas tentativas. A confusão crescia cada vez mais em sua mente, transcorrendo para seus braços e incorrendo em maiores erros e recomeços. Parecia ao garoto que cada passo daquele processo havia se tornado mais doloroso, mais penoso, mais complexo e com maior probabilidade de erro do que anteriormente. Encontrara tantas dificuldades que por vezes pensara em desistir, entregar o avental ao mestre e procurar outro ofício.

     Os dias e noites passaram velozes, e sem perceber, o garoto passou semanas trabalhando em seu segundo elmo. Ao terminar, um mês depois da primeira tentativa, levou seu elmo orgulhoso para a bancada do velho, claramente pensando ter superado o próprio mestre.

    Para sua surpresa, o velho ferreiro trouxe um segundo elmo, muito mais trabalhado e adornado do que o primeiro, colocando-o ao lado daquele forjado pelo garoto. Ficou claro, de forma quase instantânea, que o velho havia superado seu aprendiz novamente, mesmo que o trabalho ainda não pudesse ser considerado completamente profissional. Haviam arranhões em boa parte da superfície do elmo, e internamente faltava um acabamento acolchoado, além da viseira continuar fora de esquadro, mas a melhora com relação ao modelo anterior era incrível.

       Desolado, o garoto olhou para o velho com lágrimas raivosas nos olhos, acusando-o de enganá-lo. Irrompeu em calúnias contra o velho ferreiro, tentando desqualificá-lo como um mestre incapaz de transmitir seus ensinamentos e de apreciar o trabalho de seus aprendizes.

      O velho se sentou, pegou o elmo do garoto cuidadosamente e o observou longamente. Revirou aquele elmo em todas as direções, prestou atenção a cada acabamento interno e externo, abriu e fechou a viseira bem alinhada e devolveu o elmo à bancada com um largo sorriso. Olhou no fundo dos olhos do garoto, e disse:

      “Meu querido aprendiz, através de seus olhos vejo que aceitou a derrota e a vergonha em seu espírito. Sente-se, e compare sua segunda tentativa à este outro elmo.”

     O velho colocou o primeiro elmo que fez na bancada, ao lado do elmo forjado pelo garoto. Imediatamente o queixo do garoto caiu em descrença: seu elmo era quase profissional comparado ao primeiro elmo do velho. Havia passado tanto tempo desde que o contemplara pela última vez que havia esquecido de como fora forjado, do amadorismo dos detalhes e do acabamento rústico e tosco. Olhou incrédulo para o próprio elmo, uma sensação de orgulho e confusão assolando o peito. Falou ao velho: “Não entendo, porque está me mostrando este seu elmo? O que está tentando mostrar com isso?”

      E assim, sorridente e calmo, o velho respondeu: “Meu querido aprendiz, contei-lhe que precisei prestar grande atenção no meu mestre e seguir cuidadosamente seus passos. O que não lhe contei foram as perguntas que fiz ao meu mestre, as mesmas que você teve oportunidade de me fazer.”

   “Minha primeira pergunta ao meu mestre foi que me ensinasse as técnicas que eu precisava para forjar meu elmo. Com paciência e muita dedicação, ele me ensinou por 2 meses cada passo dessa maravilhosa arte, tomando o cuidado de me deixar experimentar por conta própria todas as etapas. Ao final dos dois meses, ele me deu novamente a tarefa de forjar o elmo, que conclui em uma semana, e é este que hoje você vê como amador e tosco. O elmo não está completo, porque não fora forjado por um humano completo, meu mestre me explicou quando mostrei a ele.

       Minha segunda pergunta ao meu mestre foi que me mostrasse o destino do elmo, pra quem ele seria forjado. Meu pensamento era usar aquela previsão para planejar melhor minha segunda tentativa, e assim ter como resultado um elmo completo. Ele me levou ao cavaleiro que ordenara o elmo, e me liberou para tirar todas as medidas que julgasse necessário. Era como se tivesse o próprio molde na minha mão, não poderia fracassar nesta segunda tentativa.

     E outros 3 meses se passaram, quando finalmente conclui meu trabalho. Dediquei incontáveis horas a todos os detalhes, e entreguei orgulhosamente meu elmo ao meu mestre, este mesmo elmo que lhe mostrei nesta noite. Ao colocá-lo na bancada, meu mestre sorriu e, sem dizer nada, arrastou-o para o canto, colocando ao seu lado um lindo elmo de cavaleiro real, adornado com pedras preciosas e completamente impecável. A mesma sensação que hoje você sentiu, eu senti naquela ocasião. Sentia-me enganado por ele, desolado por todo aquele tempo, energia e esforço desperdiçados.

     Assim, meu mestre me mostrou que meu elmo também não estava completo, continuava sendo forjado por um humano incompleto. E da mesma forma que ele me mostrou como podemos ser completos, agora é minha vez de lhe mostrar:

     Na primeira tentativa, focamos muito no passado, procurando as melhores técnicas para diminuir o tempo gasto e o esforço empreendido, acreditando que o resultado final não será afetado. Quando fracassamos, nos voltamos ao futuro, contemplando nosso objetivo como um sonho que confunde os sentidos, enebriando as emoções e tirando nosso foco. Os resultados bem sucedidos vem quando unimos as técnicas do passado aos objetivos do futuro, mantendo o foco no presente.

        Em outras palavras: para ser um ser humano completo, suas ações precisam se basear no passado, manter-se focadas durante o presente e ter seus objetivos futuros bem definidos.”

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